Ampelmann

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Ampelmann: um passeio por Berlim

Em 1989 o muro caiu e, assim que os dois mundos se encontraram, não faltaram veredictos: o modelo e a mentalidade do Leste perderam... “Adeus, Lênin”.

Como voltar a dirigir um Trabant, podendo passear e ao mesmo tempo ostentar um Passat?

Mas é nas ruas de Berlim que percebemos uma nostalgia contagiante, expressa num desejo incontrolável de reviver sensações e consumir produtos da antiga DDR.

Será possível? Sentir saudades da Alemanha satélite da URSS e da Stasi?

Entrando em uma lojinha na Rosa Luxemburgo Strasse, encontramos produtos que reinavam absolutos na época do socialismo. Lá estão eles: as ervilhas Tempo, a mostarda Bautzner, o espumante Rotkäppchen e os pepinos Spreewälder, que tanto trabalho deram ao jovem Alex Kerner (do filme “Good Bye Lenin”)  para ludibriar, com muito amor e remorsos, sua mãe convalescente de um ataque cardíaco, sofrido ao ver seu filho participar de uma manifestação contra o regime socialista.

Com os sabores do passado chegam também ecos dos tempos difíceis da DDR: conversas despretensiosas no trabalho, pedidos de xícaras de açúcar ao vizinho (ou seria um amigo?) e passeios pelo Tierpark.

É, deve ser daí que nasce a Ostalgie.

Como na parábola “O rei e a omelete” do berlinense Walter Benjamin, junto com os aromas e sabores do passado, estão sensações e vivências repletas de emoções.

Esperando o bondinho passar, nos deparamos com o Ampelmann. Criado na DDR, em 1961, pelo psicólogo Karl Peglau, este sinal para pedestres recebeu prêmios internacionais e foi utilizado em escolas para educar crianças.

Alguns anos após a reunificação, os Ampelmann começaram a ser trocados por sinais mais afinados com os novos tempos. Até que o designer Markus Heckhausen revitalizou o homenzinho verde, criando produtos em que ele aparecia estampado.
Berlinenses se mobilizaram e o Ampelmann está lá, oscilando as cores vermelha e verde, piscando para indicar o momento em que devemos atravessar a faixa de pedestres e percorrer ruas e avenidas em que os vizinhos não têm mais tempo (ou vontade) para conversar.

E é nesta dimensão que a História nos revela a grandeza do poeta, assim como sua contemporaneidade: “Toda alegria deve ter tristeza, assim como toda tristeza deve ter alegria”.

Com esses versos de Goethe na cabeça, observamos a marca da Coca-Cola, nos luminosos da Karl Liebeknecht Strasse...
... e saboreando uma Vita Cola concordamos: sim, há vários sinais deste saudosismo, mas o Ampelmann é sem dúvida o mais charmoso.

Iberê Wendel de Pádua Lopes – Agenda Cultural da Alemanha, 2012.